A influência do Marxismo na Rede Brasileira
Resumo da exposição de Pedro Ivo Batista* no V Congresso Marx - Atelier Ecologia e Marxismo - 04 outubro 2007
A Rede Brasileira de Ecossocialistas (RBE) é composta, em sua maioria, por militantes marxistas que atuam nos movimentos sociais, ambientais ou em partidos de esquerda (ou nos três, ao mesmo tempo).
A Rede foi fundada em 27 de janeiro de 2003, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Nesses últimos quatro anos organizou oficinas nas várias edições do Fórum Social Mundial (FSM), exceto o da Índia, e realizou dois encontros nacionais. O III Encontro Nacional está marcado para janeiro de 2009, durante o FSM em Belém do Pará.
A influência marxista na rede seu deu, fundamentalmente, por três vertentes :
1. A influência das lutas sociais no Brasil, onde destacamos : a luta dos seringueiros em defesa da Amazônia, a luta da Comissão Nacional de Meio Ambiente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) que trouxe a questão ambiental para o terreno da luta sindical e a luta do Movimento dos Sem Terra contra os transgênicos e em defesa da biodiversidade;
2. A influência dos partidos de esquerda, notadamente do Partido dos Trabalhadores que no início da década de 90 organizou sua Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento (SMAD) e em 1991 lançou o MANIFESTO ECOSSOCIALISTA dos ecologistas do PT ;
3. A luta ecológica anticapitalista internacionalista, principalmente o lançamento do Manifesto Internacional Ecossocialista organizado por militantes e intelectuais marxistas ;
Comentários sobre as três vertentes:
1. A luta dos movimentos sociais no Brasil é fortemente influenciada pelo marxismo. (Quero falar aqui a partir dos anos oitenta).Dentre esses movimentos sociais, o movimento dos seringueiros, foi o pioneiro em relacionar a luta ecólogica com a luta de classes, com a luta pela transformação radical da sociedade brasileira.
Dirigido, entre outros, por Chico Mendes, que foi militante do Partido Comunista do Brasil e depois integrou o Partido Revolucionário Comunista (PRC), corrente que atuava na ala esquerda do PT, o movimento dos seringueiros se organizou através do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e da Aliança dos Povos das Floresta, que uniu também indígenas, trabalhadores ribeirinhos e trabalhadores extrativistas em geral (1).
Os movimentos sociais da Amazônia, tendo os do Acre como vanguarda, conseguiram inaugurar uma forma inédita de luta, os EMPATES. Através dos empates, as populações utilizavam seus proprios corpos para se contrapor a derrubada da floresta.
Foi também proposta dos seringueiros, através de seus sindicatos e do CNS, a criação das RESERVAS EXTRATIVISTAS (2), apresentadas pela primeira vez ao Brasil no Congresso da Central Única dos Trabalhadores, em 1988.
Hoje as Reservas Extrativistas são uma das marcas da gestão da ex-seringueira Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente. Antes do Governo Lula, o Brasil contava com cinco milhões de hecateres de Reserva Extrativista, atualmente ampliou-se mais cinco milhões, chegando a marca de dez milhões ( e de setenta milhões de hectares de unidades de conservação em suas várias modalidades), incluindo reservas em outros biomas e estados brasileiros, como as Reservas Extrativistas Marinhas no Norte e Nordeste brasileiro que cumprem um papel fundamental na luta contra o agronegócio dos camarões responsável pela destruição dos manguezais e das populações locais (pescadores artesanais, marisqueiras, etc).
Para além da Amazônia e em paralelo à luta naquela região, a Central Única dos Trabalhadores organizou a Comissão Nacional de Meio Ambiente e ajudou a levar a questão ambiental para dentro do movimento sindical. A Comissão, entre outras ações, articulou a luta por saúde, trabalho e meio ambiente e formou alianças com os movimentos ambientalistas para discutir o modelo desenvolvimento nacional. Desse processo, surgiu em 1992, o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS). Aqui também houve a ação conjunta de militantes que vinham de organizações marxistas com militantes do movimento ambientalista, estrito-senso.
Também, o Movimento dos Sem Terra, incorporou em suas lutas pela Reforma Agrária a dimensão ecologica. Em 2006 o Movimento impulsionou o MANIFESTO DAS AMÉRICAS EM DEFESA DA BIODIVERSIDADE, que entre outras importantes questões, afirma :
"Vivemos num sistema econômico dominante que há séculos se propôs explorar de forma ilimitada todos os ecossistemas e seus recursos naturais. Esta estratégia trouxe crescimento econômico. O que se chamou de "desenvolvimento" para algumas nações, privilegiou o consumo e o bem estar social de uma parcela muito pequena da humanidade, e excluiu, infelizmente, das condições mínimas de sobrevivência, a grande maioria da humanidade.
O custo desse sistema de exploração da natureza e das pessoas, junto ao consumismo desenfreado, foi pago pelo sacrifício de milhões de trabalhadores pobres, camponeses, indígenas, pastores, pescadores, e outras pessoas pobres da sociedade, que entregam suas vidas a cada dia. Também foi pago pela agressão permanente da natureza que continua sendo sistematicamente devastada. A integridade e a diversidade de formas de vida, que são o sustento da biodiversidade estão ameaçadas (...)"
Fica também evidenciada a relação entre a questão camponesa, a ecologia e a luta contra o grande capital, particularmente o agronegócio.
2. De forma crescente a questão ambiental vem comprometendo a pauta dos partidos de esquerda. O Partido dos Trabalhadores organizou sua Secretaria de Meio Ambiente no início da década de 90, também com forte influência dos militantes marxistas das mais variadas correntes, particularmente dos que dialogam com o marxismo crítico, não dogmático, revolucionário e internacionalista.
Em 1991 esses militantes lançam o Manifesto Ecossocialista do PT que afirma, entre outras questões :
" (...) O ecossocialismo não se constrói num só país nem numa só direção. A solidariedade entre todos aqueles que são negados em sua humanidade, por serem explorados e oprimidos, se faz pelo reconhecimento que formamos uma só espécie, cujo maior patrimônio é a nossa diferença cultural. Uma posição verdadeiramente revolucionária, ecossocialista, reconhece que habitamos uma mesma casa, o Planeta Terra, que, por sua vez, està sendo ameaçado por um internacionalismo fundado no dinheiro e no lucro e por um poder altmlente concentrado: o IMPERIALISMO (...)"
O recente Congresso do PT, em setembro de 2007, aprovou a incorporação da visão de socialismo sustentável com apoio unânime de todos os delegados e delegadas presentes. Também em outros partidos de esquerda o ecossocialismo vem crescendo. Recentemente o Partido Comunista do Brasil definiu uma estrutura nacional para tratar do tema e o recém criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) já conta com um núcleo ecossocialista bastante atuante. Vários militantes desses partidos ingressaram na Rede Brasileira de Ecossocialistas.
3. No plano internacional a relação ecologia e socialismo vem avançando. O Manifesto Ecossocialista Internacional é uma das mais importantes manifestações desse processo.
Impactados pelo significado desse Manifesto e inspirados nas lutas expostas acima, vários militantes marxistas resolveram organizar a Rede Brasileira de Ecossocialistas. Nossa disposição é levar o ecossocialismo para o centro do debate politico do modelo de desenvolvimento em nosso país, contribuir para que o ecossocialismo possa integrar o pensamento e ação da esquerda mundial, revigorar o marxismo com a crítica ecológica, apartando-o de suas vulgatas produtivistas e autoritárias e dar consistência a crítica ecológica ao modelo de civilização incorporando o pensamento radical anticapitalista e comunista de Karl Marx.
Sabemos que temos muito a percorrer, mas estamos conscientes que vale a pena travar o bom combate.
*Pedro Ivo Batista é membro da coordenação da Rede Brasileira de Ecossocialistas e da Rede Ecossocialista Internacional.
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